Sardinha

“A pesca da sardinha é uma saga humana pouco mais do que invisível. Ocultada pelo imaginário épico que costumamos associar às pescas longínquas no Atlântico Norte e no Atlântico Sul, bacalhau e pescada, a sardinha só é objecto de lembrança quando, ciclicamente, há notícia de naufrágios e de vidas perdidas no mar, ou quando se reabrem debates efémeros em torno da escassez do recurso.
Por se tratar de uma pesca costeira ou do largo, julga-se que os trabalhos e as horas dos homens que vão a bordo e que da sardinha vivem são menos cruéis do que o labor da grande pesca ou das fainas épicas do mar português. São inúmeros os testemunhos literários, do cinema e das artes plásticas, nomeadamente as criações de estrangeiros, sobre as pescas do bacalhau, do atum e da baleia.
A pesca da sardinha é uma realidade muito mais oculta, anti-épica, mas nem por isso menos dramática e profundamente humana, mesmo na era dos aparelhos electrónicos que invadiram a casa do leme.”

No texto acima, Álvaro Garrido resume de forma clara o que sinto em relação à pesca da sardinha.
Depois de ter embarcado mais de uma dezena de vezes em embarcações poveiras durante a pesca da sardinha decidi documentar esta actividade e dar o devido valor a estes pescadores que alimentam um país e uma indús- tria dependente da sardinha.

Espero através deste projecto conseguir transmitir o que é a vida destes pescadores que passam muitas noites de angústia à procura de um peixe que teima em lhes escapar e regressam cansados, desanimados e sem sustento para as suas famílias para na noite seguinte voltarem a fazer o mesmo.

Esta é também uma batalha com um peixe que tenta sobreviver a todo o custo enquanto os barcos tentam pescá-lo às toneladas de uma só vez.
Uma fome infinita que não é compatível com um recurso finito.

Um registo no limite do tempo quando se percebe que poderá estar para breve a suspensão total da pesca devido à ruptura dos stocks e a incerteza do futuro destes pescadores.